A Tuberculose (A Peste Branca);

cartaz alusivo ás práticas comportamentais em relação ao contágio da tuberculose.
Origem Brasil, s/d

A luta contra a tuberculose no mundo é um exemplo de como um enorme esforço conjunto da humanidade se mostra insuficiente para vencer um mal aparentemente ao seu alcance.
A longa história da tuberculose está repleta de imagens quase míticas de epidemias, sanatórios, tisiologistas e agruras tão temidas quanto a morte ali bem se pressente.

“La Miseira” de 1886,
Pintura de Cristóbal Rojas (1857–1890)
Galería de Arte Nacional, Caracas- Venezuela

Os gregos antigos chamavam-lhe ftíase – consumpção – e assim enfatizavam o definhamento dramático dos casos crónicos.
No final do século XIX, a tuberculose ganha protagonismo com o uma das grandes pandemias, acompanhando o seu acréscimo de perto a revolução industrial. Daí que o subconsciente colectivo tenha representado uma visão debilitadora da doença, a que acresce a associação com degradadas condições sócio-económicas ou com especiais grupos de risco. Por isso o doente tuberculoso é, ainda hoje e tantas vezes, um doente envergonhado.


Selo Com Ilustração Conta a Tuberculose:
A cruz de barra dupla, ou a Cruz de Lorena é um antigo símbolo cristão e foi proposta pelo médico francês Gilbert Sesiron como símbolo internacional da luta contra a tuberculose em 1902 na Conferência Internacional sobre a Tuberculose realizada em Berlim em 1902.

Espalhando-se por todo o mundo através da exploração e colonização mas descobrindo-se também o seu agente causador, por Robert Koch em 1882. Esta pandemia perpassa todo o século XX e, apesar de a ciência ter conseguido neste século os meios para vencer este flagelo, medicamentos seguros e eficazes e também o conhecimento pleno da sua propagação, entra mesmo assim, pelo século XXI, ainda com o um dos problema as de saúde pública com maior repercussão em todo o globo.

Antes do aparecimento dos antibióticos, o tratamento da tuberculose era feito de por forma indirecta, na prática, esta doença não tinha cura ou, pelo menos, não se dispunha de um medicamento que atacasse directamente o micróbio que a provocava. A vacina B.C.G. prevista e aconselhada no Programa Nacional de Vacinação, apareceu em meados da década de 20 do século XX, inicialmente com caráter de prevenção, cuja eficácia não era assegura no tratamento de diagnósticos confirmados. Na origem da vacina esteve Albert Calmette em parceria com Camille Guérin no desenvolvimento de um bacilo Calmette-Guérin, uma forma atenuada de Mycobacterium usado na sua produção em 1921.


O Dia Mundial da Tuberculose foi lançado, em 1982, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela União Internacional Contra Tuberculose e Doenças Pulmonares.

O surto tem maior impacto a nível mundial, sobretudo nos países mais industrializados, nas duas ultimas décadas do século XIX. Depressa se percebe do elevado grau de contagiosidade desta enfermidade, por todo lado, adota-se como regra fundamental, a separação dos afectados dos sãos, de forma a não agravar a sua já grande disseminação. Começou-se por recorrer às zonas de isolamento dos hospitais cuja capacidade rapidamente se esgotou.

Foto do Sanatório das Penhas da Saúde, igualmente conhecido como Sanatório da Covilhã ou Sanatório dos Ferroviários, inaugurado em 1936.

Medidas adicionais eram necessárias para dar resposta a tal crescente flagelo, para além disto, como se sabia que, em certas zonas geográficas, sobretudo junto ao mar e a grande altitude, a qualidade do ar, associada à exposição solar, tinha efeitos particularmente benéficos na evolução da doença, essas zonas foram escolhidas como as ideais para a construção de hospitais de isolamento especializados, a que se deu o nome de “sanatórios”.
Desta forma, um pouco por todo o mundo, surgiriam, desde os últimos anos do século XIX até meados do século XX, tanto sanatórios de altitude, como marítimos.


Retrato da Família Real de Bragança: Rei Dom Carlos I e Dona Amélia

Um dos nomes português incontornáveis, também pelo interesse canalizado para este flagelo da época, foi a Rainha Dona Amélia, esposa do Rei D. Carlos e última a ocupar o lugar em Portugal, fundou a 11 de junho de 1899 o Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos, dando origem, no início do século XX, à construção de norte a sul do país, de vários sanatórios de altitude e marítimos.

Sanatório Marítimo do Outão, desde 1900 a 1950, antes já era Forte de Santiago de Outão, Casa de Veraneio da Dom Carlos I e Dona Amélia e atualmente Hospital Ortopédico Sant’Iago Outão.

Cada um com um potencial geográfico direccionado para variedades de tuberculose distintas, sendo que os sanatórios de altitude e zonas remotas densamente arborizadas, seriam os mais procurados e os que melhor representam o imaginário de toda uma realidade, cuja circunstancias alteraram mas infelizmente não se extinguiram.
Com os avanços científicos, nos finais da década de 40 do século XX, foi possível compensar os tratamentos básicos de repouso, alimentação, terapêutica reconstituinte e bons ares, com melhores medicamentos e a doença começa a ser controlada e tratada em deambulatório.

Cartaz alusivo aos avanços científicos da doença.

A recorrência aos sanatórios começa a ser menor e as suas estadias mais curtas, também aparecem menos casos uma vez que a doença controlada torna-se muito menos contagiosa, inicia-se desta forma aquela que é descrita como a lenta decadência do domínio dos sanatórios, que começaria a ganhar força com o seu progressivo encerramento a partir dos anos 50.

Hospital dos Covões, em Coimbra.

Portugal também não escaparia a esta onda muito positiva. Logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, praticamente todos os sanatórios que ainda existiam, muitos deles quase sem nenhum doente internado, acabariam por encerrar. Alguns seriam reconvertidos em novas unidades hospitalares, como o Hospital da Guarda e o Hospital dos Covões, em Coimbra.

Antigo Sanatório Mont’Alto ou Sanatório de Valongo

A maioria, sobretudo os que estavam longe dos grandes centros, seríam votados a um completo abandono, que ainda hoje se arrasta.


Centro de Reabilitação Física do Norte, em Vila Nova de Gaia

Já em 2010, depois de vários anos devoluto, por ordem do governo, viria a ser reabilitado e ampliado o edifico do Sanatório Marítimo do Norte que deu lugar ao Centro de Reabilitação Física do Norte, e que bela reabilitação, tive a oportunidade de conhecer também o interior do edificio (original) projetado pelo arquitecto Francisco de Oliveira Ferreira, que apesar de não ser devidamente conhecido, deixou um belo espolio arquitetónico.

Cartaz alusivo à luta contra a tuberculose, atualmente.

Contudo, Portugal apresenta ainda uma triste realidade quanto à incidência e prevalência desta patologia, mesmo considerando os avanço científicos verificado, a vacinação, o rastreio e a cura através dos fármacos antituberculosos.

Fontes/fotos:

nature.com/
pt.wikipedia.org/
paopinheirense.com.br/
restosdecoleccao.blogspot.com/
netogeraldes.blogspot.com/
bloguecentelha.blogspot.com/

Restauro do Palacete Marques Gomes

A vinte e poucos de dezembro de 2018, foi descontraidamente passear pelo estuário do Duro, com a maquina fotográfica em punho tentando perceber as melhores oportunidades de a poder usar, entre elas tinha em mente fotografar o Palacete Marques Gomes que é sobranceiro ao estuário, da Rotunda do Largo de Linhó, sobe a rua com o mesmo nome e na outra extremidade numa outra rotunda, estamos de frente à entrada da quinta, de onde podemos avistar logo o imponente palacete.

Tinha visto fotografias das suas ruínas em vários lugares, pela net, e gostava também de lhe poder “tiras as medidas”. Se é certo que a vida dos homens é mais curta do que a das casas que constroem, também o é que estas exigem alguns cuidados de preservação e restauro, quase sempre proporcional à sua dimensão.

No início do século XX, Marques Gomes fez fortuna no Brasil. A casa grande que mandou edificar, sobranceira à barra do rio Douro, prestou o serviço que lhe competia até que, ao fim de cerca de trinta anos, não resistiu à desarticulação da estrutura familiar que a justificava. As matas foram tomando conta do antigo montado, absorvendo as espécies exóticas e as plantações ordenadas. E o abandono marcou indelevelmente a arquitectura do lugar. Até que, a ruína, o fogo e a pilhagem destruíram o cenário da memória possível.

De encontro a essas ruínas de poucas memórias, eis que me deparei com uma coisa que não é muito habitual, para meu espanto, e contra as minhas espetativas (pensei que já nada restasse do edifício), encontrei este praticamente restaurado, no seu esplendor do que foi outrora.
Foi pesquisar e percebo que a Quinta Marques Gomes, está inserida num projeto que visa o desenvolvimento de um empreendimento residencial de luxo, composto por vários edifícios de habitação coletiva, zona de moradias geminadas e isoladas, edifícios de escritórios, um lote destinado a uma escola e outro a um supermercado, bem como o desenvolvimento de um projeto de reabilitação do palacete existente e uma zona de estar (com health club e business center).

Uma daquelas poucas vezes em que se fica satisfeito, por vez frustradas as nossas espetativas, são de louvar iniciativas como esta!